Joaquim e Anna, os pais de Maria, eram um casal já idoso da casa real de David. Desejavam por filhos e mesmo o sacrifício de Joaquim no Templo foi rejeitado por causa da sua esterilidade. Ferido de tristeza, Joaquim retirou-se para o deserto para jejuar por quarenta dias. Anjos - ou mesmo o Arcanjo Gabriel - apareceu-lhes em separado - a Ana no jardim e a Joaquim no campo enquanto guardava os rebanhos - para anunciar a ambos a vinda de um criança, Maria. Assim, ao ir ao encontro um do outro o casal encontra-se na entrada de Jerusalem, na Porta Dourada, onde eles solenemente se abraçam. A Porta Dourada ou o arco na mLivuralha da cidade é uma referência à Imaculada Conceição de Maria. Por vezes, Joaquim pode colocar a sua mão sobre o ventre de Ana, confirmando a sua gravidez. Ana muitas vezes usa um vestido vermelho e manto verde, simbolizando o amor divino e a imortalidade. Joaquim pode carregar consigo um cordeiro ou pombas num cesto.

A Imaculada Concepção da Virgem Maria é dos maiores temas devocionais, e tornou-se dogma da Igreja Católica.

Anuncio e Encontro de Joaquim e Ana(detalhe) Livro de Horas, uso de Roma, conhecido como "as Horas de Dunois", c.. 1440-1450, Paris, França



O pelicano é um animal muito devoto à sua prole. De acordo com a lenda, as crias de pelicano batem as suas asas de forma tão violenta no rosto dos progenitores que o "pai", em raiva, mata-os. Então a mãe perfura o seu próprio peito e revive as suas crias como o seu sangue. Deste modo, o pelicano representa um Deus zangado e vingativo que pune os Seus filhos, mas mais tarde arrepende-se e concede-lhes a salvação. Também ao alimentar a humanidade com o seu próprio sangue, representa a Eucaristia - este conceito tornou-se muito popular na Idade Média como resultado dos textos místicos de Santa Gertrudes de Helfta que, numa visão, viu Cristo desta forma. A Igreja fez dele um símbolo, no qual ele assemelhava-se ao Salvador, derramando seu sangue pela Igreja e pela humanidade. Por vezes o pelicano é representado no ninho no cimo de uma cruz, ou perto da Crucificação, representando a expiação.


Breviário de António de Burgundy, origem holandesa, c. 1475.



A história que envolve esta alegada virgem e mártir de tão insólita que é chega a causar alguma confusão, sendo resultado da combinação de várias lendas, que o imaginário popular tratou de unir. Primeiro, o próprio nome, Wilgefortis ou Wilgeforte – virgem forte, oferece-lhe um nome que nasceu associado à sua lenda, embora em diversos países recebe um sem número de nomes. Esta santa não raras vezes é associada como sendo santa Liberata, uma das irmãs de Santa Quitéria (a explicar num próximo post), que terá recebido o martírio às mãos do próprio pai. A lenda coloca-a em Portugal. Ou melhor, no território atualmente português, na zona de Braga. Senda a jovem de atraente feição o seu pai, que seria um rei de nome ??? tê-la-á prometido em casamento a um rei da Sicília ao qual Wilgeforte, desesperada, não sabia como fugir, pois não desejava aquele matrimónio. Orou assim a Deus pedindo que a tornasse tão feia e repugnante que homem mais nenhum havia de desejá-la. Como resposta ao seu pedido, cresceu-lhe uma farta e hirsuta barba que lhe deu feições masculinas. O rei, ao conhecê-la achando que zombavam dele por tamanha afronta, pôs fim ao acordo. O pai da santa ao vê-la e podendo explicar aquele insólito feito como obra de feitiçaria, mandou crucificar a própria filha, da mesma forma como havia morrido aquele a quem tanto amor devotava.
Iconograficamente apresenta-se vestida como uma jovem mulher tendo por vezes o arminho aos ombros, de cabelos longos e barbada e estando sempre já crucificada. A sua festividade é a 20 de Julho e tem como padroado o poder de desfazer casamentos indesejados, como não poderia deixar de ser.


Santa Wilgeforte, pintura mural localizada numa igreja em Utrecht, Países Baixos



O painel produzido em Nuremberga, e que é parte integrante de um retábulo medieval que terá sido encomendado para o convento das Clarissas Pobres de Nuremberga, faz parte com outros que retratam momentos da vida de Santa Clara.
Este episódio deu-se ainda antes da conversão de Clara, no Domingo de Ramos de 1212 quando São Fransisco a terá convidado a assitir à referida missa com as sua mais ricas vestes, pois provinha de família rica e bem posicionada. Aí, o Bispo de Assis oferta a Clara uma palma, num gesto simbólico orquestrado por São Franscisco tendo a Santa nessa data 18 anos. Pouco depois, Clara foge de casa deixando para trás a sua vida de riqueza e luxo simbolizado pelo corte dos seus cabelos que podemos entender pela presença da tesoura nas mãos de São Francisco, estigmatizado. As suas ricas vestes desaparecem para dar lugar ao conhecido hábito das clarissas. As três figuras encontram-se nimbadas, sendo acrescentado ao bispo a mitra e a clara uma coroa aludindo à sua condição de nobre.


O Bispo de Assis entrega a palma a Santa Clara, Metropolitan Museum of Art, ca. 1360, originário de Nuremberga



A árvore de Jessé é a representação da genealogia humana de Cristo baseada numa profecia do profeta Isaías. O nome de Jessé é referido no Antigo Testamento da Bíblia, mais particularmente no livro de Isaías, 11:1-3.
" Uma vara sairá do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes."
Os três principais elementos representados na árvore de Jessé são a raiz, a vara e a flor que correspondem respetivamente a Jessé, Maria e Cristo. Na sua forma mais comum representa-se Jessé, pai de David, reclinado ou adormecido e do seu ventre nasce uma árvore de cujo tronco saem ramos e em cada um deles se representam os antepassados de Cristo. .A árvore de Jessé ilustra a passagem da geração carnal (Jessé) à geração espiritual (Virgem e Cristo). A genealogia complementa-se com a representação do Menino Jesus, sua mãe Maria - por vezes entronizada com Jesus no colo - e recebendo os Sete dons do Espírito Santo; por vezes inclui-se também a figura de Deus Pai.


Árvore de Jessé, (cod. São Pedro, perg 139, Blatt7v), do Saltério Scherenberg cerca de 1260, convervado na Badische Landesbibliothek, Karlsruhe, Alemanha



Os Anjos apresentam nove hirarquias separadas consoante a sua função ou proximidade a Deus, o que leva a que sejam representados de diferentes formas. A primeira tríade é formada pelos Querubins, Serafins e Tronos e estão representados na fileira de cima. Os Querubins representam a sabedoria divina e e são representados com quatro asas e olhos esplhados pelas mesma e a sua cor é usualmente o azul ou amarelo. Os Serafins representam o amor divino e habitualmente são representados sem corpo e de cor vermelha, seis asas e por vezes emanam fogo. Os Tronos estão colocados junto ao Trono de Deus e representam a justifiça divina. Recebem a sua glória directamente de Deus e as suas tunicas são coloridas.
A Segunda Tríade é composta por Potestades e como guerreiros que combatem o demónio carregam espada ou armadura. As Dominações são anjos que, representando a autoridade, carregam uma orbe ou ceptro. As Virtudes não apresentam uma iconografia propriamente fixa, pois trabalham em favor das maravilhas obtidas pelas preces o orações, podendo portar lírios brancos ou incensários. Por fim, a terceira tríade é formada por Principados, coroados com coroa real são enviados para as missões destinadas a altos dignitários. No meio ficam os Arcanjos, são os mensageiros celestes e os mais conhecidos são Gabriel, Miguel e Rafael. Por fim ficam então os Anjos, aqueles que se encontram mais próximos dos seres humanos, são os guardiões dos inocentes e dos justos.


Passionário da Abadessa Cunegunda, (manuscrito), Coro das nove hierarquias (detalhe) séc. XII.



Daniel, profeta do Antigo Testamento, foi atirado para um cova com leões da qual saiu ileso graças à intervenção divina. Deus mandou um anjo para ajudá-lo, enquanto Habacuc, transportado da Judeia por um outro anjo, levou a comida que preparou para ele mesmo, para Daniel. O milagre foi reconhecimento pelo rei da Babilónia que fez castigar os seus detratores.
Daniel pode aparece tanto de pé como sedente, rodeado pelos leões. Em versões mais completas pode aparecer Habacuc, transportado por um anjo que o agarra pelos cabelos, levando os alimentos. Também os leões podem apresentar diversas atitudes: lambendo os pés de Daniel em sinal de submissão e respeito, com as patas apoiadas no seu corpo, pisando os cadáveres dos acusadores. Além da imagem de Habacuc que aparece como sinal de protecção pode aparecer também a "Dextra Dei" - a Mão de Deus - (publicado já num post anterior). Este representação foi entendida como prefiguração para a Ressurreição de Cristo e outros temas como a Descida ao Limbo ou o jejum no deserto.
Este programa iconográfico gozou de especial preferência dos primórdios do cristianismo e na Alta Idade Média, atingindo esta representação o seu auge no Românico.

Daniel na cova dos leões, Egipto - Bawit, século VI, madeira de tamargueira, Museu Bode, Berlim - foto da autoria do seguidor Tiago Alves